Passo 13 – Relate suas conquistas e seus desafios

Por Glaucia Terreo

Este é o décimo terceiro artigo de uma série que tem como objetivo explorar os 13 passos que uma empresa pode incorporar à sua estratégia para trilhar seu caminho rumo à sustentabilidade.

O 13º passo é o último – mas não o menos importante e longe de ser um clichê, ele é tão importante que depende do nosso bom entendimento e empenho nos 12 passos relatados anteriormente. Estamos falando de transparência. Nos 12 passos anteriores, as políticas e procedimentos organizacionais serão ajustados, entenderemos o que deve ser mudado, o que deve ser focado, escolheremos indicadores, engajaremos interna e externamente num preparo passo-a-passo para a transparência – fundamental para o bom funcionamento das empresas, assim como dos mercados.

Mas o que é relato das conquistas e desafios, relato de desempenho ESG ou relato de sustentabilidade?  É normal que fiquemos confusos – afinal é um instrumento de gestão ou um instrumento de comunicação e transparência?  Na verdade, os dois e um depende do outro. Podemos dizer que relatar é um ponto alto do processo de gestão – o momento em que avaliaremos e daremos transparência sobre a  gestão, principalmente sobre as conquistas e desafios no gerenciamento dos nossos impactos. E… transparência para quem? Para nós mesmos – para que tenhamos clareza de nossos pontos fortes e os que precisamos fortalecer; e para os stakeholders impactados para que acompanhem as medidas e processos.

Essa transparência é importante porque invariavelmente nossos impactos não gerenciados tornam-se riscos seja em forma de multas, perda de clientes ou desvalorização da marca por questão de reputação: consumidores deixam de comprar, investidores e talentos se afastam etc. Esses constituem o valor do relato de sustentabilidade: ao sermos transparentes, mostramos que não estamos indiferentes e alheios aos nossos impactos  e que, de maneira responsável, buscamos soluções para minimizá-los ou mesmo mitigá-los – postura que gerará confiança e admiração.

O relato deve ser crível e sincero – mostrando onde erramos, o que deu certo e também o que ainda falta ser feito ou mudado. É muito comum depararmos com relatos que abordem somente aspectos positivos, de maneira ufanista – o que é um grande erro. Stakeholders são bem informados e quando querem saber mais, buscam informações na Internet e em outras fontes – até mesmo conversando com a comunidade impactada, empregados etc.  Devemos sempre lembrar que quem atribui e define valor da organização são os Stakeholders, por meio de suas decisões – pois são eles que compram, eles trabalham lá, eles que investem, eles que se manifestam a favor ou contra etc – assim, nada de relato ufanista!

Há ainda a possibilidade de não dizermos nada a respeito de nossos impactos, das conquistas e desafios. Outro grande erro. Stakeholders, incluindo bancos e investidores, buscam ativamente informações sobre desempenho socioambiental de empresas para fundamentar decisões, e ao nada encontrarem em fontes públicas, nos avaliarão negativamente porque para eles, a falta de informação já é um importante indicador.

Outro erro comum e atual é relatarmos pela metade… Há uma pressão enorme por relatórios mais concisos. Isso não significa que podemos cortar pedaços de informações. Significa que devemos ser mais objetivos ao relatarmos.  Existem muitas informações irrelevantes nos relatos e é isso que deve ser melhor trabalhado. Os temas a serem abordados devem espelhar a gestão, ter começo, meio e fim. Se gerenciamos bem um impacto e queremos relatar as conquistas, precisamos dizer a razão, de que maneira isso era um risco, de que maneira a boa gestão ajudou na otimização e inovação de nossos processos, por conseguinte impactando na capacidade de criação de valor financeiro ou econômico. É esse o principal ponto que precisamos buscar – sermos sucintos, mas dar a informação completa para que decisões possam ser tomadas tanto dentro quanto fora da empresa.

Em um exemplo real, uma empresa do setor elétrico que ao se deparar com o desafio da inadimplência – criou um projeto que promove ganhos em aspectos negociais, sociais e ambientais. Nesse projeto, a empresa recebe materiais recicláveis descontando o valor correspondente na conta dos clientes. Esses materiais são vendidos a cooperativas e o recurso resultante  é usado como desconto ou mesmo para saldar  contas dos clientes inadimplentes. Com isso, a empresa melhora seus indicadores de inadimplência, o ganho social se dá com o melhor relacionamento com clientes,  o ganho ambiental se dá com o descarte adequado e a reciclagem do material que seria descartado incorretamente na grande maioria. Essa solução tornou-se uma externalidade positiva, uma vez que outras empresas setor, inspiradas pelo exemplo, desenvolveram projetos similares.

Esse projeto tem ganhos em várias perspectivas mas se a comunicação não for completa ao investidor, por exemplo, ele achará lindo, mas não vai ver relação com o retorno do investimento que busca. A lógica do relato da conquista deve ser:

1) gestão do impacto por meio de projeto, razão, ação, mudança de procedimento, investimento em nova tecnologia, etc.

2) o que a organização ganhou, seja em marca, credibilidade, reputaçãocomo impactou as vendas, ajudou a economizar etc – e como influenciou no retorno do investimento.

3) desafios pendentes referentes ao impacto.

Este encadeamento de fatos tem sido uma grande ausência nos relatos.

As Normas da Global Reporting Initiative, mais conhecida como GRI, trazem sugestões de passos para definição de temas materiais e indicadores correspondentes para relatar a gestão dos impactos com protocolos técnicos produzidos em rede de conhecimento mundial. A tarefa de fechar a informação com a segunda e terceira partes deve vir do nosso raciocínio.

Por fim, é comum focarmos numa discussão interminável sobre modelos a serem seguidos. Essa discussão não é a mais importante – o que precisamos fazer é definir propósitos para trazer a  sustentabilidade para a gestão – afinal para que trilharemos este caminho? O que queremos transformar? Quais benefícios negociais buscamos e por que? Perguntas como essas são as mais importantes pois aí saberemos para onde vamos com isso.

Estamos muito perto de 2030 e, num piscar de olhos, já estaremos lá. Os desafios dos ODS são imensos, mas as empresas são organizações repletas de pessoas inteligentes com ideias e ideais inovadoras capazes de criar soluções incríveis  – não podemos nos dar ao luxo de perder essa massa cinzenta fazendo negócios como sempre fizemos – o “business as usual“. Lembrando sempre da notícia boa:  vivemos numa época muito, mas muito interessante, em que o conhecimento  acumulado e seu fácil acesso nos permite que trabalhemos para que  as empresas façam parte da solução dos problemas planetários ao mesmo tempo em que são bem sucedidas em seus negócios. Assim, arregacemos as mangas e vamos trabalhar!

 

Glaucia Terreo iniciou sua atuação na área de Responsabilidade Social Empresarial e sustentabilidade em 2001 quando ingressou no Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. No instituto sua atuação esteve centrada em Ferramentas de Gestão e de 2003 a 2007 foi coordenadora dessa Área sendo responsável pelo acompanhamento e revisão dos Indicadores Ethos de Responsabilidade Social. É Diretora da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil desde janeiro de 2007 tendo como uma das principais funções a disseminação das Diretrizes para Relatórios de Sustentabilidade da GRI. Ministrou palestras  e workshops sobre o tema em todo o Brasil e em outros países da América Latina, além de Ásia, África e Europa.  

 A Global Reporting Initiative (GRI) é uma ONG internacional sediada na Holanda. Reúne representantes de governos, empresas, ONGs e especialistas de todo o mundo para desenvolver, conjuntamente, indicadores de gestão e normas para relato de  sustentabilidade. A GRI, hoje, é a ferramenta mais utilizada por empresas no mundo todo para a medição, acompanhamento e comunicação do desempenho social, ambiental e econômico. A ferramenta criada pela GRI contribui também para o engajamento de Stakeholders, para a reflexão, conhecimento e gerenciamento dos impactos das operações, aperfeiçoando as estratégias organizacionais. O objetivo da entidade é fortalecer a transparência como um dos pilares da sustentabilidade. As Normas GRI consistem de um bem comum e estão disponíveis gratuitamente para organizações interessadas.

 

Este artigo reflete as opiniões do autor e não deve ser interpretado como opinião da B3  ou como recomendação de investimento. A B3 não se responsabiliza nem pode ser responsabilizada pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência de seu uso para qualquer finalidade.
2017-06-21T19:20:54+00:00 21/06/2017|Artigo em foco|