A era do consumo compartilhado

Por Fabian Salum, fabian@fdc.org.br

Em momentos de redução significativa do consumo de bens e serviços, torna-se necessário empreender novas ideias para que a sociedade possa se recuperar da recessão econômica.

Para a nossa sorte, sempre encontramos pessoas brilhantes que nos provocam a sair da inercia para a ação. Na academia, nós os consideramos como pensadores e idealizadores de novos conhecimentos predispostos a provocar rupturas no modelo em vigor dentro de uma sociedade desigual, como é a que vivemos.

Em leituras e pesquisas recentes realizadas aqui na França, destaco o relatório recém-publicado pelo World Economic Forum (WEF) em parceria com INSEAD e Cornell University – The Global Information Technology Report 2016.

Os pontos mais relevantes que encontrei no relatório são: a tecnologia e a inovação. De acordo com o relatório, estas serão as vertentes que poderão guiar a prosperidade e a gestão do risco das nações nos próximos anos. Ainda segundo o relatório da WEF, para que essa previsão se materialize, é fundamental incentivar o surgimento de novos negócios com empreendedores predispostos a inovar. Inovar também requer a predisposição por correr riscos. As variáveis frequentes desconhecidas são contextualizadas dentro do ambiente organizacional como risco. Se não forem bem analisadas e mitigadas, podem ser materializadas como perdas.

Durante a pesquisa realizada sobre um tipo de modelo de negócios em mercados adeptos à pratica colaborativa, encontrei o livro da professora Rachel Botsman intitulado “What’s mine is yours”, comercializado no Brasil com o título “O que é meu é seu” pela editora Bookman. Segundo a autora, o consumo compartilhado transformará o modelo tradicional de fazer negócios e a própria percepção de valor da sociedade. Esta teoria dá-nos embasamento à trajetória e ascensão, por exemplo, das companhias como Airbnb, LendingClub e RelayRides, que se apoiaram na tecnologia digital para estarem habilitadas a compartilhar e intercambiar todos os tipos de bens e serviços, o que representa na prática o surgimento de uma nova era – Da confiança.

A teoria de Botsman, contempla três possíveis tipos de mercados em que a confiança pode ser praticada, são eles:

Mercados de redistribuição – identifica-se pela circulação de bens usados de um local para outro, onde o bem ainda possa ser utilizado;

Mercados de estilo livre e colaborativo – caracteriza-se como um mercado de compartilhamento dos recursos. Recursos podem ser: financeiro, humano, físico e organizacional, por exemplo.

Mercado de produtos e serviços – identificado quando um consumidor se dispõe a pagar pelo beneficio que a utilização de um produto pode lhe oferecer e não a posse do mesmo.

O aspecto inovador que merece destaque no terceiro tipo de mercado citado acima, é o princípio do uso de algo por um período de tempo desejado e não a
posse de um bem por um período indeterminado. Pois bem, é sobre o consumo compartilhado e a prática da confiança entre consumidores, que resolvi investigar com maior profundidade e assim tentar constatar na prática o uso da aplicabilidade do binário Tecnologia e Inovação, indicado no relatório do WEF como sendo uma recomendação para o futuro das nações.

Na Europa, encontrei duas companhias em ascensão: Car2Go e Drivenow. Ambas possuem uma estratégia de funcionamento que se baseia no compartilhamento dos riscos envolvidos no negócio e na prática do consumo colaborativo. O Modelo de negócios, por sua vez, é com base no princípio de Carsharing (carro compartilhado – em livre tradução) ou mobilidade para o futuro. Os componentes deste modelo de negócio são basicamente três – (a) plataforma para registro do usuário e download do aplicativo, via internet; (b) frota de veículos com modelos econômicos e com pequenas dimensões para o uso em grandes centros, como ainda carros elétricos e por último (c), suporte e inteligência na gestão de frota de veículos para locação e seguro dos ativos.

A Car2Go foi criada por uma iniciativa inovadora da Daimler, montadora de veículos alemães detentora da marca Mercedes-Benz que se associou à Europcar, companhia líder em locação de veículos na Europa. A ideia surgiu em 2007, oriunda da Divisão de Inovação Empresarial da Daimler. A divisão identificou novos mercados que poderiam complementar, no futuro próximo, o negócio atual da indústria de veículos.

Considerado como o primeiro modelo de carsharing do mundo sem a necessidade de um local fixo para o consumidor realizar suas reservas e/ou locação de um veículo da marca Mercedes-Benz, a plataforma foi baseada para se tornar possível, graças à tecnologia utilizada por meio de aplicativo instalado em Smartphone ou direto do site da companhia, a um preço extremamente razoável. Por alguns centavos de euro por minuto de uso, somado a uma taxa de adesão, o usuário poderá escolher o modelo do veículo que deseja utilizar, sem gastar com combustível, estacionamento e aquisição do bem. Na visão do negócio, o fabricante propicia ao usuário, a oportunidade de conhecer e interagir com a marca do veículo, principalmente, com o novo conceito da tecnologia desenvolvida para carros elétricos. Os veículos podem ser encontrados e/ou reservados pelas ruas, com o apoio do aplicativo, em algumas cidades da Europa,
como Berlim, Hamburgo, Stuttgart e Düsseldorf.

No caso da Drivenow, a iniciativa é muito parecida e apoiada pelas montadoras alemãs BMW i, MINI COUPER e a Locadora de veículos SIXT. O propósito desta joint venture é oferecer aos seus clientes flexibilidade no uso temporário de umveículo da frota BMW e MINI, fazendo com que eles possam conhecer os veículos e as tecnologias embarcadas durante o seu uso. O slogan desta companhia é muito simples DRIVENOW. FIND IT. DRIVE IT. DROP IT.

Fabian Salum é professor e pesquisador nas áreas de estratégias competitivas e inovação. Fabian é doutorando em Administração pela PUC Minas e INSEAD, é mestre em Administração pela Fundação Pedro Leopoldo e engenheiro mecânico pela PUC Minas. Ele atua em programas abertos, customizados e parcerias na FDC. Já atuou em empresas como a Andrade Gutierrez, Freudenberg, Amanco, Algar, Coca Cola, Invepar, Electrolux, Petrobras, Souza Cruz, Unimed, Biorigin, TV Globo, Bemis, entre outras. Foi professor da FGV e IBMEC. Como consultor, já trabalhou em diversos segmentos de mercado em vários países. Foi gestor de equipes na Universidade Corporativa do Grupo Fiat e executivo nas empresas Toshiba, Unilever, Lear Corporation, Fiat e Votorantim. Na FDC, Prof. Salum foi gerente executivo da Parceria para o Crescimento Sustentável (PCS), gestor do Centro de Referência em Inovação (CRI Minas), coordenador técnico do Parceiros para a Excelência (PAEX).

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2017-06-21T18:59:44+00:00 21/06/2017|Artigo em foco|