Governança corporativa nas empresas familiares: profissionalização e sucessão

Por Domingos Ricca, ricca@empresafamiliar.com.br

Ao ser considerada como forma predominante de empresa em todo mundo, a empresa familiar ocupa uma grande parte do nosso tecido econômico e social. Representando parte significativa do conjunto das empresas privadas existentes no país e no mundo, uma das maiores preocupações de seus dirigentes é a sobrevivência dessas organizações. Fazer com que um empreendimento empresarial tenha sucesso e continuidade, passando de pai para filho, é o sonho dourado para grande parte da população mundial.

Para a maior parte das pessoas, as duas coisas mais importantes em suas vidas são sua família e seu trabalho: É fácil compreender o poder das organizações familiares, visto que as mesmas combinam ambos os elementos. Quando os dirigentes são parentes, suas tradições, seus valores e suas prioridades brotam de uma fonte comum.

Transferir essas características para as próximas gerações é ponto chave do processo sucessório. Os herdeiros precisam compreender e incorporar cada uma delas para dar continuidade ao modelo de gestão consolidado.

O motivo do fracasso de muitas empresas é que, quando o herdeiro assume a gestão, ele desconsidera todo o trabalho já realizado, acreditando que possa renovar. Com certeza, a segunda geração também possui experiências para acrescentar no empreendimento. No entanto, é preciso conciliar a implantação de inovações, que irão gerar novas oportunidades, com a perpetuação da imagem positiva da empresa, construída pelo fundador por meio de seus quatro pilares.

Com o processo sucessório, toda a cultura organizacional deve ser compreendida e colocada em prática pelos sucessores, de maneira a perpetuar a postura que a empresa assume diante de funcionários, do mercado e da comunidade. Para tanto é necessário desenvolver uma comunicação eficaz, que apresente reiteradamente às novas gerações e a todos aqueles que estão inseridos no contexto organizacional, quais são as bases do negócio.

O primeiro passo para uma boa sucessão e profissionalização é a governança corporativa, e aqui apresentamos os conceitos e o processo como um todo para que os empresários de forma geral, e os gestores familiares em especial, possam ter uma visão ampla de onde se deve iniciar o processo.

O que é Governança Corporativa?

O termo Governança Corporativa corresponde ao sistema pelo qual as sociedades são dirigidas e monitoradas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, Conselho de Administração, Diretoria. No caso das empresas de capital aberto, ainda estão relacionados:  Auditoria Independente e Conselho Fiscal.

As boas práticas de governança corporativa têm a finalidade de aumentar o valor da sociedade, facilitar seu acesso ao capital e contribuir para a sua perenidade.

Podemos entender ainda a governança corporativa, como a estrutura de relacionamentos e correspondentes responsabilidades de Sócios, Conselheiros e Executivos, definidas estas da melhor maneira, de modo a encorajar as empresas a terem o desempenho econômico como objetivo principal. É valor, apesar de, por si só, não o criar. Isto somente ocorre quando ao lado de uma boa governança temos também uma gestão organizacional eficiente, eficaz e efetiva.

Cada empresa tem sua metodologia de trabalho e cultura própria, faz-se necessário, além de cultivar, respeitar esta cultura que direcionou uma empresa ao sucesso.

Quando a empresa é familiar, os valores da família são repassados para a organização. O que se espera é que os valores e o contorno cultural sejam mantidos e as ações modernizadas ao longo do tempo, como forma de adaptação ao mercado em que a organização está inserida.

O processo de Governança Corporativa está calcado no fato de que toda e qualquer organização, familiar ou não, seja regida por um mecanismo de transparência e confiabilidade em sua gestão, que permita que os valores fundamentais que regem a dinâmica empresarial não sejam corrompidos ao longo do tempo.

A importância da Governança Corporativa nas Empresas Familiares

A prática dos princípios de transparência, equidade e responsabilidade pelos resultados perante os fundadores, sócios e herdeiros ajudam a evitar consequências desagradáveis geradas por muitos conflitos típicos de empresas familiares ao longo do tempo. Estima-se que cerca de mais de 80% das empresas enfrentam problemas dessa natureza atualmente.

A falta dos valores de governança corporativa é o fator que mais potencializa os conflitos e muitas vezes, põe em risco a própria sobrevivência de muitas empresas de natureza familiar, justamente pela falta de transparência e unidade de entendimento do negócio junto aos familiares que estão fora da administração da empresa.

Outras vezes, é o tratamento distinto entre os familiares com direitos iguais, ou ainda, a falta de responsabilidade pelos resultados daqueles que estão na administração da empresa frente aos que não estão que provocam tantos conflitos, chegando muitas vezes a comprometer a sua continuidade do negócio.

A boa governança corporativa proporciona aos sócios a gestão estratégica de sua empresa e a efetiva monitoração da direção executiva. A principal ferramenta que assegura o controle da propriedade sobre a gestão são as ações conduzidas pelo Conselho de Administração.

Vantagens de uma boa Governança Corporativa para as empresas familiares:

  • Reduzir os riscos do processo de sucessão;
  • Controlar e gerir os negócios familiares por meio de um Conselho de Administração, assegurando ao fundador o direito de se afastar, paulatinamente, das operações, sem comprometer a performance e a continuidade da empresa;
  • Desenvolver treinamento para o sucessor, por meio de sua participação no Conselho e proporcionar mais chances de estabilidade da empresa e dos negócios, não dependendo eminentemente da pessoa do fundador para isso;
  • Proporcionar aos principais Sócios ou sócios, condições de atuação e participação na gestão das empresas e dos negócios, não estando, necessariamente, envolvidos nas operações, conduzidas por equipes profissionais;
  • Melhorar a qualidade da gestão por meio da contribuição de conselheiros da família e conselheiros externos qualificados e reconhecidos no meio empresarial;
  • Certos agentes de mercado como bancos, fornecedores, parceiros de grande porte, multinacionais, governo, não veem com bons olhos a empresa familiar quando ela atinge certo estágio de estagnação e convive com os conflitos familiares já mencionados. A prática de uma boa governança corporativa melhora a imagem junto a esses agentes.

Para garantir que o processo sucessório seja adequado e eficaz, é necessário considerar que haja um processo de formação do sucessor, conduzido, preferencialmente, pelo fundador, e a existência de regras claras para minimizar os conflitos entre parentes. A Governança Corporativa pode resolver os problemas sucessórios, por meio do conjunto de regras definidos por ela.

Domingos Ricca é Sócio-Diretor da Ricca & Associados Consultoria e Treinamento.  

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2017-06-06T22:41:34+00:00 06/06/2017|Artigo em foco|