Pentágono da Fraude: entenda a racionalização

Por Renato Santos, S2 Consultoria

Em meus artigos, defendo sempre que as ferramentas de compliance são aliadas no processo de prevenção de dilemas éticos. Embora as empresas brasileiras estejam percebendo a importância de investir em mecanismos de proteção contra a fraude, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

A maneira como as organizações escolhem seus profissionais para cargos de gestão, tanto em situações de promoção, quanto de contratação, contempla a avaliação de suas competências, mas não o mapeamento de seu potencial de integridade resiliente (PIR).

O profissional talentoso não é sinônimo de profissional ético, e o mesmo vale para empresas parceiras ou fornecedores, que podem cometer fraudes na sua organização e você nem desconfia.

Por esses motivos, as ferramentas de compliance são estratégicas em aplicações anteriores à contratação de funcionários/fornecedores e em processos de desligamento. O objetivo é que os profissionais de RH/gestores reconheçam o potencial de desvios de comportamentos e, a partir dessas informações, planejem ações de prevenção para evitar casos de problemas éticos e morais.

Mapeamos 5 vertentes para a ocorrência de fraude e hoje quero aprofundar a vertente da racionalização.

Racionalização ou verbalização manipulatória?

Quando um funcionário identifica possibilidades de fraudar, tende a racionalizar seus atos e iniciar pequenos roubos ou falsificações. Se as ações passarem despercebidas,  a frequência e quantidade de fraudes tendem a aumentar gradualmente. Às vezes, quando a organização se dá conta dos fatos, a proporção já tomou uma dimensão tão grande que pode impactar diretamente no setor financeiro e na sua reputação.

Em alguns casos, a racionalização pode ser confundida como uma verbalização manipulatória, com o objetivo de diminuir a culpa do fraudador frente às consequências que a organização pretende tomar. Por isso, muito cuidado ao gerenciar casos em que:

1) A fraude é justificada para salvar um membro da família que está doente;

2) Há uma insatisfação no trabalho (salário, ambiente, tratamento recebido pelos gerentes) e por isso, a culpada é a própria empresa;

3) A pessoa não entende ou não se importa com as consequências dos atos cometidos e não aceita noções de decência e confiança.

A racionalização pressupõe que o fraudador planeja a fraude e reconhece as consequências que isso pode lhe causar. No entanto, diante uma construção mental baseada na flexibilidade da moral, o ato ilícito se justifica como plausível. Filtros emocionais, psíquicos, contexto e histórico familiar podem determinar suas tomadas de decisões.

Quando as empresas se deparam com esses casos, será que orientam da melhor forma os processos? Geralmente, ocorrem demissões mal conduzidas, escândalos midiáticos e queda na qualidade do clima organizacional. É por isso que investir em treinamentos e programas de compliance são a melhor forma de evitar que sua empresa se envolva em escândalos de corrupção.

Se você se interessou em tornar seus profissionais de RH e gestores em agentes de compliance, leia esse artigo!

Por que utilizar a metodologia do Pentágono da Fraude?

O Pentágono da Fraude é uma metodologia que foi desenvolvida em minha tese de doutorado, com foco na dimensão humana do risco. Busca-se avaliar o perfil ético do funcionário e evitar a demonização de fraudadores. Ao contrário das ferramentas de prevenção de fraudes que existem no mercado, focadas nos processos que levam à fraude, na S2 nós colocamos foco no fator humano.

Com base em 5 vertentes: Pressão, Racionalização, Oportunidade, Capacidade e Disposição ao Risco, é possível mapear a postura do candidato ao se deparar com dilemas éticos.

No primeiro artigo, tratei sobre pressão. Resumidamente, a pressão está presente em todos os níveis hierárquicos das organizações, mas ocorre mais frequentemente no nível executivo, pois as empresas tendem a investir pesado em sistemas de governança no operacional. Por isso, é indispensável capacitar os agentes de governança com treinamentos específicos na área de compliance.

 

Renato Santos é executivo da S2, Advogado, MBA Gestão de Pessoas, Mestre e Doutor em Administração pela PUC-SP. Experiência na área de Compliance em diversas organizações por mais de 15 anos. Professor, colunista e autor do livro “Compliance Mitigando Fraudes Corporativas”, premiado pelo Instituto Ethos e CGU.

Este artigo reflete as opiniões do autor e não deve ser interpretado como opinião da B3 ou como recomendação de investimento. A B3 não se responsabiliza nem pode ser responsabilizada pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência de seu uso para qualquer finalidade.
2017-05-18T19:47:51+00:00 12/05/2017|Artigo em foco|