Empresas familiares: impérios de hoje e de ontem

Por Domingos Ricca, ricca@empresafamiliar.com.br

Ainda estão em nossa memória empresas que levaram décadas para serem construídas e ruíram em alguns anos pela falta de Governança e Estratégia.

Magazine Luiza, Gerdau, SBT e Rede Globo são grandes corporações de sucesso, e têm, em comum, o DNA de uma Empresa Familiar. Mas o fato de serem grandes, por si só, não significa que estejam livres de problemas, ou mesmo de não existirem daqui a alguns anos.

É imensa a relação de grandes empresas que foram as maiores em sua época e hoje são apenas uma lembrança. Quem tem mais de trinta anos ainda se recorda das Lojas Brasileiras, Mappin, Lojas Arapuã, Mesbla, G. Aronson e muitas outras. Todas foram gigantes que faliram com o tempo. A Lojas Brasileiras, por exemplo, possuía 63 lojas em todo o país, porém, após anos de prejuízos, encerrou suas atividades em 1999.

Nesse mesmo ano, o Mappin, uma das mais tradicionais lojas do Brasil e um ícone da cidade de São Paulo; a Mesbla e a Rede G. Aronson encerraram as atividades. Com dívidas enormes, causadas pela má administração, esses impérios, que levaram décadas para serem construídos, ruíram.

Se formos analisar as causas dessas empresas hoje viverem apenas em nossa memória, provavelmente a primeira coisa que notaremos é que houve ali a falta de Governança Corporativa, que é o primeiro passo para uma empresa se perpetuar. Talvez tenha faltado a essas empresas a transparência, equidade e responsabilidade pelos resultados, fatores estes que teriam ajudado a evitar a morte prematura da organização.

Nas empresas familiares, que estão sujeitas a todos os fatores de risco e mais alguns – por conta do sempre presente fantasma da sucessão, existem pontos de atenção que precisam ser observados caso a organização pretenda se perpetuar para as próximas gerações, são eles:

  • Redução da informalidade nos processos e procedimentos;
  • Aperfeiçoamento de questões vinculadas a profissionalização;
  • Inserção de regras equivalentes para todos;
  • Formação do sucessor, se possível com a presença do fundador.

Sem dúvida alguma, o empreendimento familiar representa o tipo de empreendimento mais duradouro que existe. De acordo com O’Hara, “…antes das corporações multinacionais, havia a empresa familiar. Antes de Revolução Industrial, havia a empresa familiar. Antes da contribuição da Grécia e do Império Romano, havia a empresa familiar”.

Embora as organizações de natureza familiar continuem a existir, estudos comprovam que somente 30% sobrevivem à segunda geração, e 5% à terceira.

Em recente reportagem veiculada no Valor Econômico, foi publicado que agora está se encaminhando para o fim o processo de falência da loja de departamentos Mappin. O último e mais valioso bem da massa falida foi arrematado por R$ 81,7 mi. Este fato, colocado a público, reabre a discussão sobre como uma empresa lendária como esta pode falir. É inacreditável até hoje, passadas quase duas décadas.

Algumas organizações familiares podem durar por muitas gerações. Abaixo estão alguns dos negócios familiares mais antigos do mundo:

Kongo Gumi – Japão
Atividade: Construção
Fundação: 578
Está na 40ª geração
Na Internet: www.kongogumi.co.jp
O príncipe Shotoku trouxe da Coréia membros da família Kongo para o Japão há mais de 1.400 anos para construir o templo budista Shitennoji, que existe até hoje. Por muitos séculos, a Kongo Gumi participou de várias construções famosas, inclusive do castelo de Osaka no século XVI. Até há pouco a família continuava a construir e reformar templos religiosos. Infelizmente a empresa encerrou suas atividades em 2007. Consta aqui apenas como referência porque, ao que tudo indica, é a mais antiga do mundo que chegou até os dias de hoje.

 

Houshi Ryokan – Japão
Atividade: Hospedagem
Fundação: 718
Está na 46ª geração
Na Internet: www.ho-shi.co.jp/jiten/Houshi_E/
De acordo com a lenda, a divindade da Montanha Hakusan falou em sonho com um monge para revelar que havia uma fonte de águas termais curativas numa vila próxima chamada Awazu. A fonte de água quente foi encontrada e o monge pediu que a família Houshi construisse e administrasse um spa neste local. Este hotel tem hoje a capacidade de receber cerca de 450 pessoas.

Château de Goulaine – França
Atividade: Vinhedo, Museu e Coleção de Borboletas
Fundação: 1000
Na Internet: chateau.goulaine.online.fr
A famíliar Goulaine administra este estabelecimento há mais de 1.000 anos. O castelo, além do museu, disponibiliza uma coleção de borboletas raras e organiza vários eventos, inclusive casamentos. O vinho pode ser adquirido nos vinhedos do castelo.

Fonderia Pontificia Marinelli – Itália
Atividade: Fundição
Fundação: 1000
Na Internet: www.campanemarinelli.com
Esta fundição de sinos foi estabelecida em Agnore, na Itália, no ano 1000. Agnore é uma pequena cidade localizada no alto dos montes Apeninos. Os administradores desta empresa ainda aplicam as mesmas técnicas, que utilizam cera, usadas pelos fundadores da firma (um “sino falso” de cera é recoberto com metal). O badalar dos sinos da Fonderia Pontificia Marinelli é ouvido no mundo todo: Nova Iorque, Beijing, Jerusalém, América do Sul e Coréia. O empreendimento familiar atualmente emprega 20 pessoas. Entre estes funcionários há 5 membros da família Marinelli. Atualmente a empresa é administrada por Pasquale Marinelli. Em 1997 a firma abriu um museu onde é mostrado o trabalho de um irmão de Pasquale, o escultor italiano Ettore Marinelli.

Barone Ricasoli – Itália

Atividade: Vinhos e azeite de oliva
Fundação: 1141
Na Internet: http://www.ricasoli.it
Fundada em Siena, na Itália, em 1141. As primeiras terras foram doadas aos barões Ricasoli pela República de Florença no século XII. Hoje a propriedade tem mais de 14 km quadrados.

Barovier & Toso – Itália

Atividade: Vidros
Fundação: 1295
Está na 20ª geração
Na Internet: http://www.barovier.com
Durante séculos a família Barovier produz vidro cristalino, vidro madrepérola e vermelho corneliano isento de ouro na Ilha de Murano, a 10 minutos de distância de Veneza pelo ferry-boat. Em 1936 os Baroviers fizeram uma fusão com a família Toso, também fabricantes de vidro em Murano.

Definitivamente, a Empresa Familiar é um grande negócio!

Domingos Ricca é Sócio-Diretor da Ricca & Associados Consultoria e Treinamento.  

Este artigo reflete as opiniões do autor e não deve ser interpretado como opinião da B3 ou como recomendação de investimento. A B3 não se responsabiliza nem pode ser responsabilizada pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência de seu uso para qualquer finalidade.
2017-04-26T23:20:04+00:00 26/04/2017|Artigo em foco|