Passo 12 – Estabeleça metas

Por Juliana Lopes, juliana.lopes@cdp.net

Este é o décimo segundo artigo de uma série que tem como objetivo explorar os 13 passos que uma empresa pode incorporar à sua estratégia para trilhar seu caminho rumo à sustentabilidade.

Na jornada da sustentabilidade, o estabelecimento de metas dá o horizonte a se seguir e permite o engajamento necessário para a transformação efetiva dos modelos de negócios diante dos desafios. Mudanças climáticas, conflitos políticos e sociais, declínio dos ecossistemas, urbanização, crescimento populacional, escassez de recursos naturais são algumas mega tendências que serão cada vez mais determinantes para a perenidade dos negócios em médio e longo prazo. Responder a essas tendências exige inovação disruptiva, o que, nas palavras do criador desse conceito, Clayton Christensen, “é a única forma de converter a mudança em oportunidade”.

Em contraponto às inovações transformacionais do século XX, as inovações disruptivas são aquelas que introduzem novos benefícios ao mercado, como maior simplicidade e conveniência no uso, muitas vezes também ao menor custo. Essas inovações são caracterizadas pela transformação contínua dos processos e modelos de negócio.

E o que essa discussão tem a ver com sustentabilidade e o estabelecimento de metas? Diante dos desafios da sustentabilidade, as organizações precisarão se perguntar qual a natureza da sua atividade e quais as reais necessidades sociais atendidas por seus produtos e serviços. E assim, encontrar um modelo para que operem e prosperem dentro de limites ambientais e sociais seguros.

Elas devem ir além da eficiência durante a produção, sendo capazes de entender os impactos ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos e serviços. Trata-se de um nível de demanda diferente em termos de performance socioambiental. Para atingi-lo, as empresas devem refletir se as suas ações estão tendo escala no setor em que atuam e na economia como um todo. Essa é a única forma de serem verdadeiramente sustentáveis.

E para que isso seja factível se fazem necessários métodos para definição de metas orientadas ao futuro e com embasamento científico. É o que propõe a iniciativa Future-Fit Business Benchmark, segundo a qual o estabelecimento de metas deve se orientar por ambições de longo prazo e ações robustas, medindo não apenas a melhoria relativa, mas focando principalmente o progresso absoluto.[1]

A iniciativa propõe métodos para definição de objetivos de negócio em linha com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Tomando como exemplo o Objetivo 9: “Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável e acelerar a inovação”, se propõe que os negócios devem reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa de suas operações e encorajar seus fornecedores a fazerem o mesmo.

E de que maneira isso pode se traduzir em metas? As empresas deverão definir metas consistentes com o nível de descarbonização recomendado pela ciência para limitar o aumento da temperatura em até 2°C. Pensando nisso, CDP, Pacto Global, World Resources Institute (WRI) e WWF formaram a iniciativa conjunta Science Based Targets, com o objetivo de aumentar o nível de ambição das ações corporativas na área de mudanças climáticas a partir da adoção de metas de redução de gases de efeito estufa que efetivamente apoiem a transição para uma economia sustentável e limitem o aumento da temperatura em até 2°C.

De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), as emissões de gases de efeito estufa tiveram um aumento de 31% entre 1990 e 2010. Seguindo essa trajetória, projeções apontam que as temperaturas globais podem aumentar entre 3,7°C e 4,8°C até o final deste século (2100). Para manter o aumento da temperatura em 2°C em relação aos níveis pré-industriais, limite considerado seguro, a comunidade científica adverte que, até 2050, as emissões devem ser reduzidas entre 41% e 72% em relação aos níveis de 2010. Isso resulta em um orçamento de aproximadamente 1000 giga toneladas disponíveis para serem “gastos”. Mantendo o nível atual de emissões de 49 giga toneladas ao ano, esse orçamento será gasto em 20 anos.  Isso significa que as ações de redução de emissões precisam ser aceleradas para a transição para uma economia sustentável.[2]

Infelizmente, os esforços dos governos, empresas e sociedade até o momento não têm sido suficientes para evitar o aumento de temperatura previsto. Em 2010, foram lançadas 48 bilhões de toneladas de CO2e na atmosfera. Sem o Acordo de Paris, esse montante chegaria a 61 bilhões de toneladas até 2030. Os compromissos de reduções assumidos pelos países, como parte do Acordo na forma das Contribuições Nacionalmente (NDCs), evitariam 6 bilhões de toneladas de emissões desse total. No entanto, uma redução de 42 bilhões de toneladas seria necessária para limitar o aumento da temperatura bem abaixo dos 2°C.

O relatório Mind the Science, elaborado pelo CDP para a iniciativa Science Based Targets, constatou que o nível de esforço do mundo corporativo ainda não é suficiente. Metas de redução de emissões podem encobrir uma inadequação significativa: podem ser aplicáveis somente a uma pequena proporção das emissões da empresa. Para serem significativas, as metas devem cobrir a maioria das emissões. Mesmo com centenas de empresas estabelecendo metas de redução para suas emissões diretas, muitas não são relevantes. Para aquelas que estabelecem metas compatíveis com uma trajetória de 2°C, poucas são de longo prazo (olhando até 2030 ou mais).[3]

Na América Latina, enquanto 59% das empresas participantes do Programa Climate Change do CDP, em 2016, estabeleceram metas de redução de emissões, somente nove declararam publicamente que definiram suas metas baseadas na ciência. No entanto, a maioria pretende fazê-lo nos próximos dois anos. Se por um lado, 69% das metas cobriam mais de 80% das emissões nos escopos 1 e 2, por outro lado, a maioria das metas de redução de emissões estabelecidas é de curto prazo, entre 2015 e 2020. [4]

As empresas desempenham um papel central na redução das emissões globais e na influência no desenvolvimento de políticas que nos conduzam a economias sustentáveis. A adoção de metas com embasamento científico é uma forma de comunicar a ambição dos esforços de mitigação da empresa e também demonstrar a viabilidade política e econômica de modelos de negócios que operem dentro de limites ambientais e sociais seguros. As metas funcionam como uma bússola para que as empresas entendam onde estão, para guia-las ao seu destino e para verificarem se estão no curso correto durante a jornada da sustentabilidade.

[1] Future-Fit Business Benchmark. Acesso em 27 mar. 2017. Disponível em: http://futurefitbusiness.org/what-is-a-future-fit-business/
[2] Science Based Target Setting Manual. Acesso em 27 mar. 2017. Disponível em: http://sciencebasedtargets.org/wp-content/uploads/2016/10/SBT-Manual-Draft.pdf
[3] CDP. Mind the Science Report. Acesso em 27 mar. 2017. Disponível em: http://caringforclimate.org/wp-content/uploads/Mind-the-Science-Report.pdf
[4] CDP. Capital natural: transparência e gestão como estratégias de mitigação de riscos. Acesso em 27 mar. 2017. Disponível em: http://cdpla.net/relatorio/?page=1

 

Juliana Lopes é graduada em jornalismo, com um MBA em Marketing e Mestrado em Administração pela FEI na linha de pesquisa em sustentabilidade. Como diretora do CDP Latin America, é responsável pelas atividades da organização na região. Atuando há 12 anos na área de sustentabilidade, Juliana começou sua carreira no terceiro setor, onde liderou projetos de capacitação para empoderar a sociedade civil para uma gestão mais participativa e eficiente da água. Foi editora da revista Ideia Sustentável, a primeira revista brasileira especializada em Responsabilidade Social Corporativa, onde também coordenou projetos de estudos e pesquisas, bem como de consultoria estratégica em sustentabilidade. Trabalhou em empresas multinacionais como BASF e Bridgestone-Firestone na área de comunicação corporativa. Também se dedicou a elaboração e implementação de campanhas de comunicação da sustentabilidade para clientes corporativos e organizações internacionais como WWF. Integra o Grupo de pesquisa internacional sobre Licença social para operar.

 

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2017-04-12T19:17:09+00:00 12/04/2017|Artigo em foco|