Mulheres na sucessão familiar

Por Domingos Ricca, ricca@empresafamiliar.com.br

O sonho do pai nem sempre é o sonho do filho, mas e se o sonho do pai for o mesmo da filha? Entenda porque cada vez mais a presença feminina aparece no cenário da sucessão familiar.

Ao longo da História, muitas mulheres se destacaram no cenário mundial, mas, a partir dos anos cinquenta, houve a mobilização feminina por igualdade e justiça. E mesmo hoje, apesar de muitas ocuparem cargos altos na hierarquia organizacional, a exemplo das executivas de sucesso em empresas globais, ou mesmo de Chefes de Estado, as mudanças no cenário econômico e empresarial podem se configurar de maneira sutil.

As empresas familiares no Brasil têm origem nas Capitanias Hereditárias, onde filhos recebiam empreendimentos rurais por herança, antes da dinamização do parque industrial no país. Embora a evolução e modernização tenham ocorrido nas organizações de maneira geral, durante muito tempo, homens eram os sucessores naturais nas empresas familiares.

Um dos maiores entraves dentro das corporações é o processo sucessório, normalmente porque o fundador constrói um negócio para que seja perpetuado para as futuras gerações de sua família. Os empreendedores familiares se preocupam, porque a empresa consumiu boa parte de sua vida e demandou um esforço sobre-humano para sua manutenção e desenvolvimento.

Para qual filho deixar os negócios? E se o sonho do pai não for o sonho do filho? Muitos pais cogitaram que poderia ser o sonho da filha e a presença feminina foi notada, inicialmente de maneira tímida, e aos poucos de forma mais constante. Esse surgimento da presença das mulheres na sucessão familiar é recente. Elas começaram a ser cotadas para a sucessão nas empresas familiares há apenas 15 anos.

Atualmente, as filhas estão inclusas nos processos sucessórios, principalmente por serem mais próximas do pai e o acompanharem em suas atividades profissionais. Isso permite um profundo conhecimento das características que consolidaram a liderança do fundador, além dos meandros corporativos.

As mulheres possuem também uma maior sensibilidade para lidar com os problemas vinculados aos conflitos familiares, tendo uma capacidade significativa para negociar acordos que sejam vantajosos a todos os envolvidos.

Assim como qualquer mulher inserida no mercado de trabalho, as herdeiras encontram empecilhos no caminho do sucesso profissional. Precisam entender os aspectos sociais e culturais que reforçam o estereótipo dos líderes corporativos, muitas vezes vinculados ao modelo masculino, resolver os conflitos decorrentes dos diversos papéis a serem desempenhados nos relacionamentos interpessoais e profissionais, entre outros desafios.

Em pesquisas recentes, descobriu-se que o motivo pelo qual as mulheres ingressam na empresa da família se respaldam na necessidade de ajudar a própria família, ocupar uma posição que ninguém deseja assumir, ou até mesmo por conta da insatisfação com outro emprego. Identificou-se que muitas herdeiras não haviam planejado uma carreira na empresa familiar, entrando no negócio por contingências diversas.

Em 2013, o mercado foi surpreendido pela notícia de que Elena Ford, 46 anos, neta de Henry Ford II e tataraneta de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company (em 1903), foi eleita vice-presidente da companhia, sendo a primeira mulher da família Ford a ocupar uma posição desse nível na empresa. Este é um sinal de que as mulheres estão assumindo posições cada vez mais significativas nas corporações, sendo esta tendência algo irreversível e de grande impacto para o modelo de gestão adotado pelas organizações.

No Brasil temos exemplos de grandes líderes sucessoras: Luiza Trajano, do Magazine Luiza, Liliana Aufiero, da Lupo e tantas outras mulheres, que sucederam grandes figuras empresariais, de empresas maiores ou menores, forjadas no esforço de seus fundadores ou fundadoras, e que são responsáveis por manter os valores que respaldam famílias e organizações familiares.

 

Domingos Ricca é Sócio-Diretor da Ricca & Associados Consultoria e Treinamento.  

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2017-04-12T16:30:43+00:00 12/04/2017|Artigo em foco|