As dores do crescimento

Por Raphael Brino, raphael.brino@gmail.com

Crescer dói? Em muitos casos, sim. A chamada dor do crescimento, quando criança, é mais comum do que se imagina. A maior parte das crianças tem uma sensação dolorosa recorrente, sem causa específica, que se denomina como “dor do crescimento” por se manifestar em uma fase crucial do desenvolvimento físico. É um momento peculiar para a criança e os pais, que terão de aprender a lidar com essa realidade. Estranho e curioso ao mesmo tempo, não? Talvez, mas faz parte de uma fase natural da vida. O crescimento do corpo humano é um processo bastante dinâmico, que começa na concepção e se prolonga até a vida adulta, com intensidades que variam nas diferentes fases da vida da criança e do adolescente até atingir a plena maturidade.

Trazendo para o universo corporativo, pode-se dizer também que não existe crescimento sem dor. As dores que as empresas enfrentam no dia-a-dia originadas da busca pelo crescimento são inevitáveis. Imagine quantas dores algumas renomadas empresas já tiveram ao longo da sua existência, como o grupo Boticário, que nasceu de uma pequena farmácia em Curitiba, ou a Natura, que surgiu de uma pequena loja em São Paulo, e ambas hoje são gigantes corporações com décadas de existência. Até mesmo as empresas high-tech, que em poucos anos de existência já valem bilhões, ainda sofrem para provar que possuem um negócio sustentável e lucrativo. A trajetória para o sucesso de um negócio ou até atingir sua maturidade é longa. Serão muitas as dores pelo caminho e não existe atalho. Dessa forma, seria prudente saber: quais são os principais desafios ou dores na busca pelo crescimento sustentável? E, mais importante, como amenizar tais dores?

Há inúmeros fatores e paradigmas aqui envolvidos. Uma empresa já nasce tendo de lidar com dois ambientes: o ambiente interno (sócios, funcionários, operação, etc), o qual a empresa tem certa gestão e condução e o ambiente externo (fornecedores, clientes, governo, regulação, etc), o qual a empresa precisará competir ou se adaptar à realidade e às tendências. Naturalmente, os maiores desafios são originados pelo ambiente externo, o que chamamos de mercado, que por sua vez, provocará o ambiente interno a superar tais desafios. De uma forma bem subjetiva, esse é o ambiente de negócios, e a capacidade de amenizar ou intensificar as “dores” oriundas de cada ambiente está em como lidamos com as situações – aqui enxergamos dificuldades e oportunidades.

Empresários, empreendedores e mesmo gestores associam corretamente crescimento com escolhas e decisões acertadas, porém muitas vezes difíceis e complexas. Há situações diversas a serem enfrentadas, que envolvem relacionamentos pessoais, profissionais, societários e familiares. Interesses, desejos e sonhos pessoais, em muitos casos, também entram na lista quando se trata do futuro da empresa. Além de questões inerentes a qualquer negócio, como regulação, obrigações legais, carga tributária e necessidade de capital. Essas são dores chamadas conjunturais, presentes em qualquer empresa, sendo algumas mais espinhosas do que outras. Por outro lado, há uma realidade talvez mais intensa que afeta o negócio de forma mais ampla – o impacto que o crescimento pode trazer à operação, o ambiente interno, colocando em cheque o futuro da empresa.

A convergência de todos esses fatores em prol do crescimento e continuidade da empresa não é um trabalho fácil. Certamente, o crescimento do negócio gera uma demanda maior, que gera pressão interna, que gera conflitos internos, havendo necessidades de adaptações e mudanças, onde, muitas vezes, essas dores se alongam e acabam exigindo uma boa capacidade dos líderes em conduzir toda a situação para manter o foco na busca pelo crescimento. Particularmente, por já ter atuado em diversos momentos em empresas emergentes e com grande potencial de crescimento, tive a oportunidade de vivenciar algumas interessantes e intensas experiências e percebi que o crescimento desordenado pode trazer muito mais problemas e acabar levando a empresa a perder as rédeas do negócio. O crescimento é um dos grandes objetivos de uma empresa, porém, se não bem planejado e conduzido, poderá ser um tiro no pé.

A busca pelo crescimento sustentável faz parte da estratégia das empresas.  No entanto, uma nova realidade de mercado tem emergido, fazendo com que as empresas se deparem com novas dores, ou simplesmente dores mais agudas na busca pela perpetuidade. Tanto as empresas, quanto os ambientes onde estão inseridas estão em constante desenvolvimento e evolução. Se olharmos ao redor, veremos um mercado cada vez mais dinâmico e complexo, onde: preocupações com sustentabilidade, regulação, novos negócios e tecnologias disruptivas, alta competitividade, busca por maior eficiência, redução de custos, consumidores e clientes mais exigentes por preços e qualidade, entre outras questões, são hoje as “novas dores” do crescimento. Diante dessa realidade, faz-se reconhecer que o sucesso do negócio hoje não garantirá o sucesso do negócio amanhã. Pensando nisso, empresas buscam cada vez mais a inovação, criatividade, exploração de novos mercados, internacionalização, diversificação de produtos e negócios, entre outros posicionamentos e estratégias para a celeridade do crescimento.

Essa nova era que tende a se intensificar, tem provocado grandes reações e exigido intensas transformações de gestão. Estamos vivendo um momento de grandes mudanças e adaptações a novas realidades. Em vista disso, empresas têm sofrido para manter estratégias e modelos de gestão mais aderentes. Grandes grupos que antes tinham como estratégia diversificar, atuando em diferentes segmentos, perceberam a importância de se manterem focados ao que realmente sabem fazer, o seu core business. Empresas globais sentiram na pele que não basta crescer em market share e faturamento e ter uma operação de baixa eficiência, rentabilidade e às vezes até prejuízo. Empresas emergentes, com potencial de crescimento rápido, se vêem no desafio de atender a expansão e ao mesmo tempo terem uma operação eficiente, lucrativa, e ainda, a satisfação do cliente.

Essa é a nova realidade. No entanto, é sensato enfatizar que situações adversas remetem a oportunidades.  O caminho, apesar de tortuoso e dolorido, projeta grandes perspectivas de crescimento. Percebendo isso, muitas empresas têm saído na frente ao tomarem certas medidas visando amenizar essas dores e, de certa forma, reforçando a busca por um crescimento sustentável. Nesse elenco de medidas que as empresas vêm tomando, podemos considerar o seguinte conjunto de três ações, necessidades e estruturas essenciais.

 

  1. Capital e Investimentos: Crescimento requer investimento, que requer capital. O grande desafio hoje está em sustentar um retorno de investimento atrativo e ideal, que proporcione não apenas maior crescimento em receita, market share ou lucro, mas a maximização do valor do negócio. Visando isso, não somente o crescimento orgânico, mas um grande potencial estratégico tem sido buscar sinergias com fusões e aquisições de empresas ou unidades de negócios complementares. Cada vez mais tem havido movimentos de consolidação de segmentos e portfólio de produtos, visando ganhos de escala e eficiência operacional. Para buscar esse atrativo competitivo e com o objetivo de financiar projetos de crescimento, as empresas brasileiras, oportunamente, contam com diferentes formas de captação de recursos e diluição de riscos, como entrada de fundos de investimentos (private equity) se tornando sócios no negocio, alternativas no mercado de capitais com captação de dívida (CRA, CRI, FIDC e Debêntures) e mesmo abertura de capital na Bolsa de Valores (IPO), já atrativo e de fácil acesso para médias empresas.

 

  1. Estratégia e Gestão: Uma estratégia com visão em curto, médio e longo prazo, alinhada à uma gestão eficaz, são as bases para um crescimento sustentável. Métodos antes voltados apenas ao curtíssimo prazo, visando ganhos financeiros, não se sustentam mais. Também uma realidade presente é a necessidade de boas práticas que venham a ter aderência ao negocio e uma governança corporativa mais ativa, presente no dia-a-dia da gestão e nas tomadas de decisão. Ouvir o cliente e atender a necessidade do mesmo, assim como, eficácia e eficiência nas operações e processos são fundamentais.

 

  1. Cultura Forte, Ambiente e Pessoas: Talvez esse seja o grande diferencial de mercado, e que, ao mesmo tempo, tem exigido maior aderência. A essência está em: ter e desenvolver uma cultura onde as pessoas (funcionários) tenham senso de dono, estejam engajadas, comprometidas com a causa, sintam-se motivadas, realizadas e recompensadas. Ter gestores líderes. Buscar constantemente um ambiente dinâmico, competente, profissional, colaborativo, meritocrático, que demonstre valor às pessoas e que dê oportunidades ao desenvolvimento delas. Afinal, é esse conjunto que fará com que as pessoas alcancem os resultados esperados.

 

A leitura de mercado hoje é: crescer para se manter competitivo. Empresas vivem ciclos, pois seus ambientes se alteram. Isso gera aprendizado, maturidade, desenvolvimento e, consequentemente, a empresa estará mais preparada para obter um crescimento sustentável. A cada dia, novos players surgem no mercado, provando-se capazes, desafiando as dificuldades pela trajetória do crescimento, nos mostrando o grande potencial que ainda existe nesse horizonte, em se fazer negócios, inovar e criar.

Concluindo, é fato que as dores existem e existirão sempre em qualquer percurso e desenvolvimento de uma vida. Numa empresa ainda mais, visto que a natureza dos negócios se alterou. Romper o status quo para obter crescimento e, por conseguinte a perenidade da empresa, se tornou crítico. Por isso, a importância de uma visão de futuro, ter pessoas aderentes à essência do negocio e buscar sinergias para atingir os objetivos almejados. Como dito no inicio, nas dores enxergamos dificuldades, mas também criamos oportunidades.

 

Raphael Brino é experto em empresas emergentes e reestruturação corporativa. Tem atuado como executivo de finanças e mais recentemente como consultor em empresas nacionais, multinacionais, em empresas familiares e de portfólio de fundo de private equity, em diversas indústrias. Como agente de mudanças, tem liderado situações de transformação, reestruturação, profissionalização da gestão, estruturação organizacional e modelagem financeira; tendo como foco o crescimento e desenvolvimento sustentável do negócio, e criação de valor. Graduado em Contabilidade, com MBA em Controladoria e Finanças.

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2017-03-29T15:11:46+00:00 29/03/2017|Artigo em foco|