Conselho de Administração e Governabilidade na gestão de crise das empresas familiares

Por Domingos Ricca, ricca@empresafamiliar.com.br

O fundador de uma empresa familiar é, comumente, uma pessoa solitária na sua posição de gestor corporativo. Muitas vezes, sua tomada de decisão é precedida de conflitos pessoais e, com frequência, não tem com quem dividir o “peso” de suas responsabilidades.

Algumas de suas inquietações são:

  • Meu filho (a) tem condições de assumir a empresa?
  • Como posso alocar todos os meus herdeiros na organização?
  • Como escolher um sucessor?
  • Sou pai e dono da empresa. O que faço para preservar os dois papéis?

Entre outros dilemas…

A inclusão do Conselho de Administração nas empresas familiares permite que a organização tenha instrumentos para garantir o gerenciamento de crises, quer sejam elas vinculadas à gestão ou inerentes às relações familiares.

É necessário entender que vários fatores afetam a dinâmica dos Conselhos de Administração, a partir de ações e comportamentos que precisam ser contextualizados para efeito de entendimento. Neste artigo, iremos tratar de três dos aspectos vinculados ao comportamento nas organizações, que são: delegação, autoridade e responsabilidade.

Delegação de Autoridade e Responsabilidade

O Conselho de Administração tem responsabilidade e autoridade finais dentro da organização. Entretanto, é preciso que seja delegada parte da sua responsabilidade e autoridade para que o diretor possa gerir as operações da empresa e tornar o seu trabalho eficiente e eficaz.

É muito comum que o diretor seja o fundador (ou outro membro da família) e sócio da empresa. Neste caso, além de ser responsável pela organização ou por uma área, pode fazer parte do Conselho de Administração, mas não decidirá nada sozinho. Precisa da aprovação do colegiado para as tomadas de decisões estratégicas, e deve prestar contas aos demais membros do Conselho.

A delegação consiste em pedir que outra pessoa faça algo no seu lugar. Alguns gestores podem se sentir tentados a delegar as coisas com as quais não querem se envolver. Entretanto, delegar não significa livrar-se da responsabilidade. Aquele que delega a tarefa ainda é responsável por fazer com que ela seja realizada.

Como assegurar que a autoridade delegada, a responsabilidade e os sistemas de prestação de contas sejam claramente comunicados e entendidos?

Uma das maiores causas de confusão nas empresas é a falta de conhecimento sobre quem tem autoridade e responsabilidade sobre cada assunto. Isto resulta em lacunas de desempenho, duplicação de tarefas e manejo inadequado de recursos corporativos.

É importante que a pessoa esteja ciente da sua autoridade e responsabilidade. Ambas devem estar escritas claramente, e todos devem ter acesso a este documento na organização.

Tanto a responsabilidade quanto a autoridade estão ligadas à prestação de contas, ou seja, à resposta pelo resultado das próprias ações ou da falta de ação. Portanto, ela está presente onde quer que haja uma relação entre duas pessoas.

É comum ver a prestação de contas como algo negativo, em que as pessoas só procuram uma oportunidade para responsabilizar os outros quando fizerem algo errado. Entretanto, também pode ser algo positivo, que podemos usar para o desenvolvimento mútuo.

A responsabilidade do Conselho de Administração é garantir que a organização cumpra o seu propósito. Este é o papel da Governança Corporativa para a condução das organizações familiares rumo às próximas gerações.

A Governança Corporativa somente gerará valor para a empresa familiar se houver o desenvolvimento de uma boa gestão organizacional. Neste caso, a boa governança permitirá uma administração ainda melhor, em benefício de todos os sócios, da família e dos colaboradores.

 

Domingos Ricca é Sócio-Diretor da Ricca & Associados Consultoria e Treinamento e da Revista Empresa Familiar. Consultor especializado em Governança Corporativa para Empresas Familiares. Palestrante e Conferencista nacional e internacional. Conselheiro da FIERGS. Administrador, MBA em Gestão pela Wisconsin University,  PhD em Administração pela Florida Christian University. Certificado em Governança Corporativa pela SQS Suíça. Autor dos seguintes livros: Governança Corporativa nas Empresas Familiares: Sucessão e Profissionalização. Editora CL-A. São Paulo, 2012; Sucessão nas Empresas Familiares: Conflitos e Soluções. Editora CL-A. São Paulo, 2006; Da Empresa Familiar à Empresa Profissional. Editora CL-A. São Paulo, 1998.

Este artigo reflete as opiniões do autor e não deve ser interpretado como opinião da BM&FBOVESPA ou como recomendação de investimento. A BM&FBOVESPA não se responsabiliza nem pode ser responsabilizada pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência de seu uso para qualquer finalidade.

 

2017-04-05T13:32:52+00:00 08/03/2017|Artigo em foco|