Desvie da rota de colisão: tome atitudes

Diante de uma das mais severas crises das últimas décadas, até empresas relativamente saudáveis têm enfrentado problemas de liquidez e se tornado insolventes. Nesse momento, para se proteger e minimizar os impactos, é crucial que as empresas olhem para dentro e controlem as variáveis que estão sob o seu comando para evitar “quedas bruscas de altura”.

Para preservar o negócio, que muitas vezes se perpetuou por gerações, recomendamos que a empresa execute dois passos fundamentais. São eles:

(i) Revisão do planejamento estratégico, para redirecionar a empresa à realidade econômica vigente, e

(ii) Implementação de ferramentas tático-operacionais que proporcionem uma gestão financeira disciplinada para defender o negócio.

Estas duas medidas abarcam um conjunto de ações essenciais para a sobrevivência do negócio, como por exemplo, a criação de um canal de comunicação com credores e investidores com dados confiáveis da companhia; deter controle e conhecimento profundo do fluxo de caixa no curto prazo; planejar ações no médio prazo utilizando dados e premissas embasadas no novo cenário macroeconômico para antecipar movimentos; desenvolver iniciativas que tenham impacto positivo no caixa da empresa; dentre outras ações.

Em épocas de adversidade, as fraquezas ligadas a uma gestão familiar pouco profissionalizada tornam-se ainda mais acentuadas. Os problemas vão desde a falta de mecanismos de previsão de fluxo de caixa, gestão de capital de giro e estoques, aos custos elevados, a existência de uma equipe de “confiança” que não necessariamente é a mais eficiente, às retiradas dos sócios que impactam no caixa da empresa.

A mudança de rota é muito delicada, pois o empresário precisa perceber que atitudes precisam ser tomadas e com certa rapidez. Não é fácil…

Algumas decisões são absolutamente urgentes e necessitam de um planejamento mínimo com estratégias de curto e médio prazo. A organização dessas ações deve partir de uma análise das fontes internas de melhorias e das causas das deficiências, e que poderá ser observada em uma matriz de prioridades, destacando aquelas ações cujos resultados sejam imediatos e que não tenham grande complexidade de implementação. Mas sabemos que, devido às pressões do dia-a-dia, ao envolvimento emocional e as dificuldade em aceitar erros cometidos, muitas vezes é necessário o auxílio de uma equipe de especialistas com uma visão isenta, técnica e multidisciplinar.

Ainda que cada setor possua características próprias, enumeramos abaixo DEZ AÇÕES que auxiliam nesses momentos turbulentos:

  1. Assumir o controle total do caixa;
  2. Melhorar a previsibilidade de fluxo de caixa e, consequentemente aumentar a credibilidade com terceiros;
  3. Trabalhar intensamente no corte de despesas gerais e administrativas;
  4. Identificar oportunidades fiscais;
  5. Implantar estratégias de liberação de estoques e ações diferenciadas de ativação de vendas;
  6. Analisar cuidadosamente os recursos humanos realmente necessários;
  7. Monetizar seus ativos não estratégicos;
  8. Monitorar custos e margem de contribuição por produtos;
  9. Postergar ou, se não for possível, acompanhar de perto qualquer saída de recursos, incluindo os investimentos em curso (Capex);
  10. Trabalhar em operações mais estruturadas de captação de recursos priorizando prazos dilatados e custos mais competitivos. No entanto, sem descartar a possibilidade de captar até mesmo no curto prazo a custos disponíveis de mercado, desde que haja possibilidade de readequação do fluxo num futuro próximo, seja através de troca de passivos com alongamento do perfil da dívida utilizando garantias, diminuição de custos com securitizações ou até mesmo com uma operação de injeção de capital via venda de participação acionária.

Ações focadas com esforço e disciplina geram resultados mais previsíveis em épocas de crise, levando a melhorias imediatas de caixa, de controle e de planejamento. Dessa forma, os principais riscos ligados a insolvência e liquidez tornam-se cobertos, desviando a companhia da rota de colisão e possível insolvência, até que o cenário se torne positivo novamente. Acreditamos e torcemos que esse cenário mais favorável se realize, mesmo que timidamente, no curto-médio prazo.

Luiz Felipe P. Fleury é bacharel em administração de empresas e possui MBA pela USP FIPE em Economia. Detém a permissão para utilizar a marca CERTIFIED FINANCIAL PLANNER e possui a certificação CPA 20/Anbid. Sócio de Corporate Finance & Restructuring da PKF no Brasil. Durante a carreira teve a oportunidade de atuar em mais 50 operações de mercado de capitais, operações de fusão e aquisição, gerir carteiras de crédito proprietárias, responder pela gestão de caixa e tesouraria, assessorar clientes para alternativas de financiamento, captar recursos de investidores, efetuar reestruturações e distribuir produtos estruturados de tesouraria. Obteve posições de destaque e liderança em consultorias e bancos internacionais com passagens em empresas como: PWC, Société Générale Corporate & Investment Banking, BES Investimento, entre outros.

Este artigo reflete as opiniões do autor e não deve ser interpretado como opinião da BM&FBOVESPA ou como recomendação de investimento. A BM&FBOVESPA não se responsabiliza nem pode ser responsabilizada pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência de seu uso para qualquer finalidade.
2016-12-20T18:52:24+00:00 14/10/2016|Aconteceu na B3|