IPO da Arezzo: quatro anos depois

Ana Paula Ragazzi, jornalista, ana.ragazzi@valor.com.br.

Quatro anos depois de estrear na BM&FBOVESPA, os números falam por si só para resumir a história da Arezzo no mercado. Em 2010, a varejista do setor de calçados possuía  260 franquias e 27 lojas próprias; R$ 570 milhões em receita líquida de impostos  e lucro de R$ 64 milhões. Em 2014, esses números praticamente dobraram. A empresa encerrou o ano com  462 franquias, 54 lojas próprias, R$ 1 bilhão de receita e lucro de R$ 112,7 milhões.

O crescimento da calçadista, que mudou de patamar, pode ser atribuído à visão de seu criador, o empresário Anderson Birman, de não querer  apenas manter o controle do negócio. Em vez de ficar com a empresa fechada para si, Birman se dispôs a ter uma fatia menor , mas de um negócio muitas vezes maior.

“O empresário que se propõe a criar um grupo empresarial, tal como estamos fazendo, não pode se dar ao luxo de gostar de algo ou de fazer somente algo. Ter essa flexibilidade, essa habilidade de trafegar onde o negócio exige é essencial para quem quer comandar um trabalho como esse”, afirmou Birman em conversa com a BM&FBOVESPA.

A empresa chegou à Bolsa em 2011, avaliada em R$ 1,7 bilhão. Atualmente,  vale 30% mais. Mesmo em um período mais difícil para o mercado, como os meses recentes, em função de fatores políticos e macroeconômicos do país, a companhia conseguiu entregar no quarto trimestre um resultado acima do esperado pelos analistas.

“Vemos as ações da Arezzo como defensivas no setor de consumo, considerando suas marcas fortes , baixa exposição ao crédito, e forte geração de fluxo de caixa”, escreveu o analista José Cataldo, da Bradesco Corretora, em relatório. Os analistas Fabio Monteiro e Thiago Andrade, do BTG Pactual, afirmaram que os resultados da empresa sinalizam o comportamento de uma companhia vencedora em seu nicho:  “A Arezzo continua a ser uma de nossas das preferências no setor de varejo, pois está mostrando execução consistente e melhores controles”.

Os quase R$ 200 milhões que ingressaram no caixa da companhia na oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em janeiro de 2011 foram utilizados para a expansão de suas lojas e desenvolvimento de suas quatro  marcas: Arezzo, Schutz, Anacapri e Alexandre Birman. Com disciplina financeira e de gestão, a Arezzo não caiu na armadilha de fazer aquisições  a qualquer  preço _ não comprou nenhuma outra marca, pois não encontrou outro negócio redondo como desejava.

A companhia  surgiu no início dos anos 70, por iniciativa de Birman e de seu irmão, ambos incentivados pelo pai , nos fundos de casa, em Belo Horizonte.  Os dez primeiros anos foram de paixão pelo ofício de fazer sapatos e da formação de cultura histórica da empresa.

Ao final dos anos 90, quando a Ásia despontou como grande produtora de manufatura, os empresários entenderam que se continuassem com a produção em BH não teriam como ser competitivos. Ao longo de três anos, transferiram a capacidade de produção para o polo calçadista do Rio Grande do Sul, fechando a fábrica mineira e terceirizando a produção.

Ao focar na inteligência e desenvolvimento do produto, os executivos puderam  trabalhar na expansão para o  varejo, via lojas próprias e franquias. Nessa mesma época, Birman repetiu o gesto de seu pai e incentivou o filho Alexandre a ter seu negócio próprio. Como o capital paterno  e também aos 18 anos, Alexandre fundou a Schutz, em 1995.

Em 2007, época em que a Bolsa vivia período agitado por ofertas públicas iniciais de ações, a Arezzo optou por abrir as portas para um fundo de participações, a Tarpon. As negociações entre ambos duraram sete meses. Ao final, a gestora pagou R$ 76 milhões por 25% do capital da Arezzo, avaliando a calçadista em R$ 306 milhões . De cara, juntou os negócios de pai (Anderson) e filho (Alexandre). O negócio previa a ida à Bolsa em 5 anos, mas dois anos antes desse prazo a Arezzo alcançou os resultados pretendidos e antecipou a listagem na BM&FBOVESPA. Chegou à Bolsa valendo quase seis vezes mais do que o valor avaliado pelo private equity.

A parceria que Tarpon e a família Birman conseguiram construir foi perfeita.  Em entrevista ao jornal Valor, Birman afirmou: “Eles são muito competentes  em orçamento, em gestão de pessoas. Só não entendiam do babado (referindo-se ao mundo da moda). Mas acho que todos souberam levar a parceria e eles foram muito pacientes comigo”.   

Em conversa com a BM&FBOVESPA, Birman  afirmou que pensar na estratégia do negócio,  desenvolver equipes, pessoas e processos é o que mais o seduz. Por essa razão, o empreendedor e o fundo conseguiram falar a mesma língua e entregar ao mercado uma empresa pronta para o desafio de ser uma companhia aberta.

“O IPO foi uma conquista e inseriu a empresa em um outro contexto de gestão. Mas é uma pequena etapa, um passo que te faz ter mais compromissos e mais responsabilidades. A partir de então, nós devemos satisfação e temos de entregar  resultado para muito mais gente. Temos  que render mais o dinheiro dos investidores do que se fosse o nosso”, comentou Alexandre à BM&FBOVESPA. Até o momento, os investidores não tiveram reclamações sobre a empresa.

Os executivos relatam que a Tarpon deu andamento a um processo que já haviam iniciado , de total transparência das nossas atitudes, das nossas demonstrações contábeis. O fundo trouxe ferramentas importantes de gestão. “Conseguimos concluir o IPO em 4 meses. Se a empresa não estivesse sendo preparada há muitos anos, não teria sido possível passar por todo o  crivo da Comissão de Valores Mobiliários e do Novo Mercado”, disse.

O filho Alexandre destacou que se não tivesse o fundo  na mesa , implementando  regras, políticas e gestão, seria muito mais difícil a transição de empresa familiar para uma companhia de capital aberto. “Ter essa  ponte foi fundamental para fazer a abertura de capital sem grandes traumas”, disse. Do ponto de vista operacional, captar os novos recursos e mudar de patamar foi relevante para a Arezzo ter mais musculatura para enfrentar o aumento da concorrência do mercado.

Em entrevista ao Valor, Birman afirmou que a decisão de modernizar o grupo foi tomada há mais de 15 anos, quando fecharam  a fábrica de sapatos em BH e passaram  forçar a gestão da marca e o varejo. A empresa nunca teve grandes passivos e sempre foi geradora de caixa.

“Mas precisávamos  de sócios que implementassem processos  e governança na companhia. Quero continuar na Arezzo por muitos anos, mas sou mortal. Entendi que seria importante precificar a companhia até por conta dos processos sucessórios. Listada, a empresa se pereniza”, disse.

2016-12-20T18:52:32+00:00 26/11/2015|Vitrine da B3|